Estudantes da UFC de Quixadá apresentaram projeto de telemonitoramento de aquários marinhos à distância

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Investindo em startups, estudantes cearenses têm buscado transformar suas invenções em modelos de negócios inovadores, competitivos, lucrativos e socialmente responsáveis – Fotos: Tiago Stille e Acervo Pessoal

As pesquisas científicas e tecnológicas resultam em ideias que muitas vezes anunciam potencial para galgar passos além do ambiente acadêmico. Antes somente trabalhos universitários, projetos podem se solidificar enquanto propostas de negócio viáveis e inovadoras. Cientes disso, estudantes no Ceará estão buscando capacitação para apostar fortemente em suas invenções por meio da criação de startups: empresas com recursos limitados, mas com grande potencial de atrair investimentos e crescer.

Uma dessas histórias vem do campus da Universidade Federal do Ceará (UFC) em Quixadá, reconhecidamente um polo de tecnologia estratégico, quando alunos do curso de Engenharia da Computação Matheus Fernandes, Lucas Cruz, Mateus Lima e Paulo Armando apresentaram projeto de telemonitoramento de aquários marinhos à distância. Os sensores instalados mandavam informações gerais dos peixes dentro dos recipientes para os seus proprietários em sistemas web e mobile. O projeto recebeu ótimas avaliações dentro da faculdade, que deram motivação para o grupo responsável evoluir a proposta e transformar a ideia em serviço a ser explorado no âmbito empresarial.

Os estudantes foram direcionados pela universidade ao Corredores Digitais, programa coordenado pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece) que oferece capacitação, mentoria, networking e prêmios para startups cearenses. Foi aí que se desenvolveu a Sitiá Brasil, que hoje oferece inteligência e tecnologia para o gerenciamento de criações de camarão (carcinicultura), passando todo um campo de informações e controles para os criadores controlarem os viveiros de onde estiverem.

“Os aquários eram um hobby nosso, então apresentamos o trabalho com um sistema voltado para isso na universidade. Quando entramos no Corredores Digitais, descobrimos que a tecnologia que a gente tinha criado servia para um mercado muito maior, no caso a carcinicultura, que tinha diversos problemas a serem resolvidos no Estado do Ceará e no Rio Grande do Norte, pois a coleta de informações era toda feita manualmente. Já viajamos e fizemos alguns testes em criações aqui do Estado e recolhemos informações. Estamos terminando o produto, MPV (mínimo produto viável) de alta fidelidade para ser implantado nas fazendas”, conta Lucas Cruz, um dos sócios-fundadores do jovem empreendimento.

Outra iniciativa que amadureceu como startup foi a Smart Health, em Sobral. A ideia partiu do estudante de Engenharia Elétrica da UFC, Diego Martins, ao pensar numa solução para obter informações de sua bisavó enquanto ela estivesse sozinha em casa. Junto ao engenheiro eletricista Alan Martins e aos estudantes de Ciências da Computação da UVA de Sobral, Matheus Paixão e Mateus Araújo, ele chegou ao desenvolvimento de uma pulseira que é um sistema embarcado, composto por sensores, que capta os dados biomédicos da pessoa a utilizá-la e os envia para um aplicativo no celular de quem faz o acompanhamento. A empresa apresenta hoje ao mercado a possibilidade de um serviço que otimiza o cuidado com a saúde de idosos. Mais um projeto despertado após o contato com o Corredores Digitais e outras iniciativas que fomentam os negócios em tecnologias.

“A princípio, esse projeto do Smart Health era para fazer uma pesquisa na universidade e esticar para o TCC. Minha cabeça era toda acadêmica, gostava de pesquisar. Só que aí surgiu o Sebrae Experience, realizado aqui em Sobral. Fui despretensiosamente e acabei criando um mindset diferenciado, mais voltado aos negócios. A gente utiliza esse sistema para monitorar idosos a distância. É um caso meu, pois tenho uma bisavó, e vimos também que mais de 90% das pessoas que a gente entrevistou em campo tinha algum familiar idoso que precisava de mais atenção. Esse sistema dá o controle, a segurança, além do acompanhamento de maior qualidade, dando alerta de emergências, facilitando o contato com os médicos”, conta Diego.

Corredores Digitais

Assim como a Sitiá Brasil e a Smart Health, centenas de startups no Ceará puderam alargar os seus horizontes sob a orientação do programa. Ao todo, 430 ideias já passaram pelo Corredores Digitais. Destas, 50 já se transformaram em empresas e entraram no mercado de inovação tecnológica.

Segundo a coordenadora Gabriella Purcaru, o projeto surgiu da necessidade de levar aos que realizam inovação dentro do ambiente universitário o conhecimento necessário para transformar a produção laboratorial em uma levantadora de investimentos. “Queremos oportunizar os jovens a poderem montar o próprio negócio. A gente tem capacidade de pegar toda essa produção que temos aqui no Ceará e inseri-la numa cultura empreendedora, de base tecnológica, negócios sustentáveis e viáveis”, reforça.

Os projetos das startups são captados para participar do Corredores Digitais através de inscrições abertas pelo site da Secitece, conforme ocorrer abertura de edital. Com caráter de processo seletivo, o programa cumpre três etapas que vão peneirando os projetos ao longo de dois meses, com o objetivo principal de aprimorar a habilidade de desenvolver modelos de negócios em equipe: elaboração de um modelo de negócio (200 grupos); definir os planos de produto e marketing (50 grupos); finalização do business case e apresentação da startup para avaliação de potenciais investidores (30 grupos). Em 2018, foi aberta seleção para 200 projetos para todo o Ceará.

“Participar disso é um amadurecimento muito grande, porque o que era a nossa startup antes e o que ela é hoje foi um salto de no mínimo 50%. A gente quando está na faculdade tem aquela visão de ‘vamos fazer isso, vamos fazer aquilo’ e nem sempre consegue colocar em prática o que imagina. Então no Corredores vemos um modelo de negócio, um modelo de marketing, modelos que ajudam a amadurecer a gente. Com isso também conhecemos muita gente do mercado e ganhamos um boom nos negócios. Isso é gratificante”, testemunha Matheus Paixão, um dos sócios da Smart Health.

CriarCE

Em 2018, o Governo do Ceará inaugurou um espaço público no Centro de Fortaleza com o objetivo de criar um ambiente colaborativo entre as iniciativas tecnológicas, conectar, educar e inspirar empreendedores a desenvolverem novos negócios por meios de iniciativas inovadoras, processos colaborativos de criação, compartilhamento de idéias, e uso de ferramentas de criação digital. Este equipamento, aliado ao Corredores Digitais, se estabelece como uma “encubadora” para as startups crescerem para atração de investimentos.

O CriarCE é composto por: ambientes coworking, oferecendo escritório compartilhado e gratuito; cursos e oficinas para desenvolvimento de negócios; um laboratório de prototipação (FabLab) para que projetos saiam do papel e entrem em execução com acompanhamento de profissionais; assessorias para decisões estratégicas e jurídicas.

Demoday Corredores Digitais & CriarCE

No dia 13 deste mês, foi realizado o primeiro Demoday Corredores Digitais & CriarCE. O evento selecionou as 12 startups mais bem estruturadas (mostrando faturamento, com produto desenvolvido e com modelo de negócio pronto) durante a última jornada de Corredores Digitais para que elas entrassem em contato com uma banca de investidores. “Foram oito pessoas convidadas. De fundos de investimento, investidor anjo, de aceleradoras. Tudo na perspectiva de aproximar as startups do investimento”, explica Gabriella Purcaru.

A startup vencedora desta primeira edição do Demoday foi a Sitiá Brasil. Duas outras receberam menção honrosa pelo trabalho realizado: a Smart Health e a User Contas, que oferece serviço de conectividade financeira com clientes através de faturas digitais. Todas estas saíram do evento com contatos de investidores. As 12 startups participantes também já têm apoio garantido pelo CriarCE na edição 2019.

“Esse foi o maior marketing que a gente poderia ter. A gente teve acesso a muitos empresários renomados do setor tecnológico. Tivemos feedbacks muito relevantes e, mais importante ainda, pegamos diversos contatos. Tem vários criadores que entraram em contato com a gente, parceiros dentro da própria instituição reforçou laços com a gente. A gente sentiu que comprovou que a nossa ideia é viável”, comemora Matheus Fernandes, da Sitiá Brasil.

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